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Ginasta do Tatuapé embarca para o Canadá na trupe do Cirque du Soleil e se mistura aos mais de 1.200 artistas que falam, ao mesmo tempo, 25 línguas diferentes

Força, flexibilidade, paciência e persistência são os principais ingredientes que fizeram a ginasta Carol Valim, 28, carimbar o passaporte para o Canadá com um contrato assinado com o Cirque du Soleil. Ela embarcou no começo de dezembro do ano passado para a sede internacional da trupe, onde faz um treinamento pelo qual todos os mais de 1.200 artistas que integram o grupo participam. Porém, ao contrário do que normalmente acontece, Carol já embarcou para Montreal com algumas apresentações junto ao Cirque du Soleil no currículo.

Nos últimos seis meses de 2010, ela fez parte do casting que se apresentou com o espetáculo Quidam em Porto Alegre e em alguns países da América do Sul. Ela foi contratada temporariamente depois que uma das ginastas se machucou e precisou ser substituída às pressas.

Mas a história dessa tatuapeense com o Cirque du Soleil teve início anos antes, quando ela começou a busca por um espaço no grupo. “Em 2006, eu fiquei sabendo que teria uma audição aqui no Brasil e resolvi participar. Primeiro você manda um vídeo e, se for selecionado, faz os testes. São várias etapas que englobam um pouco de tudo (corda, teatro, flexibilidade, força). Você vai fazendo os exercícios e eles aprovam ou reprovam. Tinha umas 40 pessoas no meu grupo e fiquei entre os cinco selecionados. Eles me deram uma carta de artista potencial, que faz parte do casting, e disseram que podiam me ligar no dia seguinte, depois de uma semana ou de um ano”.

Terminada essa fase, Carol entrou na época da expectativa, ansiedade e, ainda assim, muito trabalho. Para se manter no “banco de talentos” do Cirque du Soleil, que tem mais de 20 mil fichas, é preciso mandar vídeos constantemente, mostrando que você continua na ativa, se exercitando e se aperfeiçoando. Foi exatamente isso que ela fez durante dois anos até, em 2008, receber uma ligação para se apresentar como candidata a um número de trapézio no espetáculo Varekai. “Naquela época, eu não tinha tanta experiência de trapézio. Então comecei a treinar e eles até me deram algumas dicas. Fiz tudo direitinho e me ligaram dizendo que não tinha dado certo. Aí não teve jeito, fiquei chorando, chorando, chorando”.

Mais dois anos se passaram até que ela, finalmente, conseguisse a oportunidade de se apresentar com a trupe. “No meio de 2010, eles trouxeram o espetáculo Quidam para o Brasil e eu fui assistir. Como tenho amigos lá dentro, aproveitei para entregar mais material, que, dessa vez, iria direto para o diretor artístico. Infelizmente, uma das meninas se machucou e teve que ir para Montreal para se tratar. E aí, como eu tinha entregue meu material e já fazia parte do casting, me ligaram e fui fazer outra audição. Fiquei duas semanas em treinamento e já estreei fazendo um personagem: a Mãe (O Quidam conta a história da fuga de uma garota pelo mundo da imaginação e Carol fez a mãe dessa garota). Depois de mais umas duas semanas de treino, pude estrear no número da corda, na Argentina. Fiz um contrato temporário que foi prorrogado a cada cidade. Nisso, se passaram seis meses. No final, quando aposentaram a lona, falaram que tinham gostado do meu trabalho e que iam me mandar para Montreal para fazer um treinamento. Era tudo que eu buscava”.

Ciente de que estava na hora certa e no lugar certo, Carol também sabe que tem talento. “Acho que eles realmente gostaram muito do que eu faço porque, geralmente, quando precisam substituir alguém é escolhida uma pessoa que tenha o mesmo perfil físico (altura e peso), porque isso influencia no número, principalmente quando tem portagem (uma pessoa carrega a outra). Além disso, cada artista tem 12 figurinos. Imagina se eles precisarem fazer mais 12 figurinos para cada um que entrar? E o meu perfil é muito diferente do da ginasta que eu substituí. Eu sou 10 quilos mais pesada que ela. A sorte é que os rapazes eram bem fortes”, diz.

Apaixonada por circo, Carol costuma treinar em vários aparelhos, como o tecido

História

Nascida e criada no Tatuapé, Carol começou na ginástica olímpica ainda pequenina e, por muito pouco, não jogou tudo para o alto. Já era atleta federada, tinha viajado por vários países para se apresentar quando decidiu parar e ingressar em uma área mais burocrática. Foi trabalhar em escritório, onde ficou por cinco anos. Quando voltou à ativa, frequentando a academia depois de dois anos longe dos exercícios, se apaixonou pelo circo e decidiu que ia tentar a vida de artista. “Comecei a fazer circo escola com a Cidade de Lona, na academia Galpão. Gostei e fui atrás de outros lugares que ofereciam oficinas, cursos, workshops. Aí meu professor me chamou para trabalhar com ele. Na época, eu estava fazendo faculdade de Educação Física e, quando ele saiu, eu assumi a coordenação geral do circo na academia. Foi um trabalho muito legal, porque a gente implantou o circo em diversas escolas do Tatuapé”.

Hoje uma atividade disseminada por academias dos quatro cantos do mundo, o circo é algo que sempre encantou as pessoas. Desde aquele circo tradicional, no qual o ofício é passado de pai para filho, até o circo mais moderno, que mistura a arte circense à ginástica, à música e ao teatro. Integrante dessa segunda fase, o Cirque du Soleil é, na verdade, uma grande empresa, que lida com emoções, sensações e imaginação. Para fazer parte de seu casting, não basta ser um bom ginasta. É preciso se envolver com o teatro e com a música, já que, no palco, os artistas/ginastas interpretam um personagem. “Para mim até que foi tranquilo, porque eu já fazia um pouco de teatro”, conta Carol. “No circo, principalmente trabalhando aqui no Brasil, você tem que fazer um pouco de tudo, senão morre de fome. Nunca vai aparecer um trabalho só”, completa.

No circo moderno, não tem essa de dormir em trailer e comer comida preparada em fogão de acampamento. Na empresa que tem mais de cinco mil empregados, 1.200 artistas de 50 países que falam 25 línguas diferentes, os artistas têm lá suas mordomias. Quando estão em viagem, por exemplo, hospedam-se em hotéis cinco estrelas, não precisam montar e desmontar a lona, têm comida pronta o tempo todo e podem levar alguns convidados para assistir aos espetáculos. Em Montreal, a maior parte fica na sede internacional do Cirque, onde há uma estrutura com apartamentos, salas de treinamento e um esquema que permite viagem ao País de origem para visitar a família. Mas, é claro, é preciso muito treinamento para poder se apresentar para as plateias de mais de 3 mil pessoas que costumam lotar os shows do Cirque du Soleil pelo mundo.

Morando em uma casa que fica em frente ao local onde são feitos os treinamentos, enfrentando o inverno canadense, com temperaturas que chegam a -30 ºC, Carol diz que a maior dificuldade agora é controlar a ansiedade. “A estrutura aqui em Montreal é incrível. É um entra e sai de artistas o tempo todo. Estou amando tudo, conhecendo pessoas novas, mas preciso controlar o nervosismo. Já faz dois meses que estou aqui e ainda não sei o que será do meu futuro. Mas estou fazendo o meu melhor e sei que não vai parar por aqui”.

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