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Bailarina do Grupo Corpo, Sílvia Gaspar conta um pouco de como é viver profissionalmente da dança

O sotaque paulista da bailarina Sílvia Gaspar ganhou toques mineiros nos últimos 10 anos, desde que ela entrou para o Grupo Corpo, uma das mais importantes companhias de balé contemporâneo do Brasil, sediada em Belo Horizonte. Mas a verdade é que a vida de bailarina a torna, a cada dia, um pouco mais cosmopolita. Afinal, para viver profissionalmente da dança, passa cerca de seis meses viajando pelo Brasil e pelo mundo.

Nascida e criada na região do Tatuapé, ela conta que nunca se imaginou fazendo outra coisa. Começou aos seis anos porque a mãe a colocou em uma escolinha de dança, e, aos poucos, percebeu que dava mais atenção ao balé do que à escola. Então, não foi difícil decidir que, no futuro, seria bailarina. “No começo, eu queria dançar balé clássico. Mas aos poucos fui me interessando mais pelo contemporâneo”, conta.

Hoje casada com Everson Botelho, também bailarino do Grupo Corpo e também da Zona Leste, e mãe de Júlia, de 6 anos, Sílvia vive e respira dança o tempo todo. E afirma que essa deve ser a rotina de quem quiser seguir carreira no balé. “Para um bailarino, é muito difícil se formar e arrumar um emprego. Então, é preciso investir no estudo e na participação em festivais que, além da experiência, é uma forma de se fazer contatos”.

Sílvia e o bailarino Edson Hayzer em cena do espetáculo Lecuona, do Grupo Corpo. Foto: José Luiz Pederneiras

Além das aulas na academia em que se formou, ela fez parte da Escola Municipal de Bailados, do Balé da Cidade de São Paulo, foi dançar na Áustria e ter aulas em Zurich. Nessa caminhada, tropeçou em uma série de empecilhos sobre os quais ela não teria como ter muito controle como, por exemplo, a altura das bailarinas. A volta para o Brasil foi decidida quando soube de um teste para uma companhia de dança de Minas Gerais, na qual ficou quatro anos se dividindo entre o clássico, o moderno e o contemporâneo. Ao mesmo tempo, começou um flerte com o Grupo Corpo, cuja sede é em Belo Horizonte. Quando surgiu uma oportunidade, ela e o marido foram fazer o teste. Foram classificados, mas não chamados. Seis meses depois, Everson foi chamado e, depois de um ano, apareceu a oportunidade para Sílvia. “É bacana trabalhar junto porque a gente pode dividir muita coisa e estar sempre perto, mesmo quando estamos viajando”.

Foi entre o intervalo das apresentações do Grupo Corpo em São Paulo e uma viagem para a Escócia, no dia seguinte ao da entrevista, que Sílvia recebeu a reportagem para um bate-papo e a sessão de fotos.

Nesse ano, Sílvia vai participar da criação de uma nova coreografia do Grupo Corpo, que demora cerca de um ano para ser finalizada

Você começou no balé como a maioria das meninas, porque a mãe a colocou em uma escola. Chegou a pensar em fazer alguma outra coisa profissionalmente?

Não. Com o tempo, comecei a perceber que eu dava mais atenção para o balé do que para a escola. Comecei a fazer fisioterapia, mas não terminei. Quando estava no 3º colegial, parei de estudar por causa do balé. Meus pais ficaram loucos, é claro, porque primeiro querem que a gente estude. Mas eu já me dedicava muito à dança.

Essa dedicação é fundamental para quem quer, como você, viver da dança?

Sim. Hoje, eu percebo que as meninas não se dedicam tanto. A internet e a tecnologia acabaram roubando um pouco de espaço que, antes, era dedicado à dança. Eu me lembro que quando chegava a época dos festivais da escola, deixava de ir para a praia para ensaiar o balé. Se tinha um feriado, eu aproveitava para ficar o dia todo na academia ensaiando.

Hoje, em uma companhia profissional, a rotina ainda é puxada?

A gente ensaia de segunda à sexta, das 9h às 15h. Também faço pilates e às vezes vou para a natação. Felizmente, não tenho tendência para engordar, então não preciso me preocupar muito com academia. Só o balé já é um bom exercício. Quando ficamos parados é que eu procuro outras formas de me exercitar.

São seis meses por ano viajando, principalmente para fora do País. Você nunca pensou em se mudar?

Gosto muito de viajar com o Corpo, mas eu não trocaria o Brasil por outro lugar. Além disso, eu não tenho o perfil de bailarina que se procura no exterior. Cheguei a morar na Áustria e em Zurich, mas sou uma bailarina pequena para a Europa. Lá, você tem que ser mais alta. Quando aparecia algum teste, eu ligava, eles me perguntavam a altura, eu falava e não queriam nem que eu participasse da audição.

Por que no Brasil, e no Corpo, não existe esse problema?

O Grupo Corpo tem 35 anos e é bem diferente de tudo que tem no mundo. As coreografias sempre usam músicas de compositores brasileiros, a musicalidade é bem brasileira. O Rodrigo Pederneiras, que é o coreógrafo, criou um estilo muito próprio, que é perfeito para os brasileiros dançarem. Tanto que Rodrigo Perdeneiras virou um estilo de dança. A gente até tem bailarinos de fora na companhia, mas ele prefere os brasileiros porque já tem a raiz.

O balé é uma atividade que exige muito do corpo. Como vocês lidam com isso? Pode-se dizer que é uma profissão de carreira curta?

Em um bailarino o que manda é o condicionamento físico. A dança é uma atividade que pode provocar muitas lesões, e isso encurta a carreira do bailarino. É fácil encontrar por aí bailarinos de 25 anos que já fraturaram o joelho. Eu, felizmente, nunca tive lesões.

Este ano, o Grupo Corpo começa a trabalhar a criação de uma nova coreografia. Como é esse processo?

É um momento bem interessante do trabalho. A primeira coisa que a companhia faz é contratar o músico, que é bem livre para criar a trilha. A partir daí, a gente começa a criar a coreografia em cima da música. Como gastamos quase um ano na criação de um espetáculo, fazemos sempre uma montagem a cada dois anos. E sempre no ano em que a gente coreografa precisa ficar mais no Brasil, para poder pensar nessa nova coreografia.

O Brasil não é um País de muita tradição na dança. É diferente se apresentar aqui e lá fora?

Tem lugares lá fora onde temos um público fiel. Em Lion, na França, chegamos a fazer 3 semanas seguidas. O Corpo chega a ser mais conhecido lá do que aqui em São Paulo. Em Nova York, por exemplo, temos um público fiel, que vai a todas as apresentações. Já na Ásia, começamos a nos apresentar há pouco tempo, então ainda não tivemos casa cheia. Embora a gente se apresente mais lá fora, sempre estreamos os nossos espetáculos em São Paulo. Depois fazemos as principais capitais do País e depois saímos do Brasil.

As meninas que sonham em ser bailarinas precisam investir, literalmente, nesse sonho?

O tempo de estudo não é barato. Tem a fase da escola, da formação e, depois, para pegar experiência de palco, é preciso dançar bastante, participar de festivais, o que significa pagar a inscrição, o figurino e, na maioria das vezes, o bailarino que vai fazer par com você. Por incrível que pareça, o homem que decide ser bailarino começa a ganhar dinheiro antes da mulher já que, quando ele ainda está começando, recebe para participar dos festivais. Isso acontece porque existem poucos homens bailarinos e eles são muito importantes nas coreografias.

Isso aconteceu com o seu marido, que também é bailarino do Corpo?

Sim. Ele ganha dinheiro com o balé desde os 14 anos. Eu paguei para dançar até os 18.

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