Guia de quatro patas 1 1672

Entre as muitas atividades que os cães desempenham na vida das pessoas, uma delas é especial: a de cão guia para deficientes visuais

Há dois anos, a labradora Zuca e o estudante Jonas Demétrio, 25, têm uma relação fraternal e carinhosa. “Somos muito mais do que amigos. Cuidamos um do outro dia e noite”, conta ele. Com uma doença degenerativa, Jonas teve uma grande perda da visão nos últimos anos e então decidiu procurar a AFAC (Associação Fluminense de Amparo aos Cegos). “Procurei por alternativas que pudessem melhorar minha qualidade de vida e eu não sentisse tanto a perda da visão. Fiz cursos de braile, informática para cegos, entre outros; então, descobri que eles tinham um projeto de cão guia e me inscrevi. Como não era muito divulgado, entrei no começo da fila e em pouco tempo já fui chamado para seleção”, diz.

Para conseguir adotar Zuca, Jonas passou por testes psicológicos, avaliação financeira e treinamentos práticos para aprender a lidar com o animal. Desde então, Zuca oferece mobilidade e segurança ao seu dono, além de muito carinho e companheirismo. “Ela é muito dócil, tranquila e tem facilidade de aprender o que ensino. Minha única ressalva é pedir para que não a distraiam na rua, pois pode causar um acidente”, alerta.

Zuca faz parte de um time de trabalhadores de quatro patas que vivem para ajudar seus donos, deficientes visuais que querem ter mais liberdade e mobilidade. Ao contrário dos animais de estimação, eles possuem uma rotina bem mais atarefada do que passear, brincar, comer, dormir, pular, sentar, ‘fingir de morto’ ou ‘dar a pata’. Começam a ser treinados ainda com poucos meses para, no futuro, auxiliarem deficientes visuais de maneira mais segura.

E o trabalho de um cão guia é muito sério. Durante a condução do seu dono, ele deve ter a capacidade de discernir eventuais perigos, obstáculos, identificar entradas e saídas de lugares e movimento de trânsito. “Próximo aos três meses, o filhote é escolhido e passa por um período de socialização. Nessa fase, o cão aprende a conviver de maneira adequada na sociedade. Em seguida, começa o treinamento específico, quando o animal aprende a usar o equipamento de guiar e a atender aos comandos para trabalhar com segurança. Todo o processo leva de um ano e meio a dois anos”, explica George Thomaz Harrison, presidente do Instituto Cão Guia Brasil.

As raças mais utilizadas são Labrador e Goldem Retrivier, mas há outros fatores que precisam ser levados em conta. ”Basicamente tem que ser um animal muito equilibrado, que se comporte de maneira tranquila frente a diferentes situações”, explica Harrison.

No Brasil, de acordo com o Decreto Federal, os cães guia podem entrar em qualquer local público ou privado de uso coletivo, mas são poucas as pessoas que contam com esse auxílio. O País ainda tem poucos projetos que treinam e doam os cães, e bancar um treinamento específico custa alguns milhares de reais. “No nosso caso, bem como o de outros institutos e associações , o cão guia é doado para a pessoa com deficiência; porém o custo para treinar um animal de assistência pode chegar a R$ 30 mil”, conta Harrison. Ainda segundo ele, o deficiente visual precisa passar por testes para saber se está apto a ter um cão guia, além de receber orientações e fazer cursos para poder utilizá-lo na sua locomoção.

O treinamento de um cão guia é muito específico e somente profissionais habilitados podem fazê-lo. Os animais precisam se alimentar em horas certas, e devem ir ao banheiro de quatro a seis vezes ao dia, sendo que para isso seu dono precisa tirar o equipamento e dar um comando que libera o cão. Sempre que o cão estiver com a alça (ou colete), significa que está trabalhando, e não deve ser chamado ou alimentado, pois isso tira a sua concentração. “Se quiser mexer em um cão guia, pergunte ao seu dono se pode e ele dará o comando para o animal parar o trabalho ”, conta Harrison.

”O cão guia é uma extensão do meu corpo. Depois da minha esposa, é o que há de mais importante
na minha vida” Marcos Leandro

Como no Brasil ainda não há cursos para formar treinadores de cães guia, muita gente recorre ao que existe disponível no exterior. Foi o que fez o técnico judiciário federal Marcos Leandro, 35. Por meio do Instituto IRIS (Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social), ele conheceu seus “novos olhos”, o labrador Wyatt, de cinco anos. “Eles possuem um excelente trabalho, em parceria com uma escola de cães guia dos Estados Unidos, a Leaders-dog. Em 2007, o instituto me proporcionou o intercâmbio com a instituição. Um treinador e um instrutor me acompanharam para fornecer todo o treinamento em português, usando a infraestrutura da escola de lá”, conta. “É uma relação de amizade, amor, carinho e muita compreensão por ambas as partes. Wyatt é um trabalhador com suas obrigações, deveres e, obviamente, direitos. Direitos, principalmente, que não constam na lei, que é muito amor e carinho”.

Apesar de ser dedicado ao trabalho, em alguns raros momentos o cão já se deu o direito de falhar. “Como ele não é uma máquina programável, vez ou outra deixa alguma coisa passar. Wyatt anda muito rápido, então quando não tem espaço para nós dois, às vezes eu sobro na curva”, brinca Marcos.

Segundo ele, o labrador é ágil, carinhoso, inteligente, se adapta muito bem, mesmo que não haja rotina e faz muito além do seu papel de cão guia. No entanto, apesar da vitalidade que tem hoje, quando chegar à velhice, Wyatt, como todos os seus colegas de profissão, precisará se aposentar. “Ainda não sei o que farei. Tenho o direito de obter outro, inclusive com prioridade na fila, mas, sinceramente, não sei se vou querer, pois não consigo me imaginar com outro ‘amigo’ que não seja ele. Por outro lado, acho que não saberia ficar sem o amor e a ajuda de um cão guia”.

1 Comment

  1. Boa tarde!
    Parabéns Quatro Patas em criar um espaço dedicado aos nossos amigos,eu comercializo planos de saúde para cães e gatos e é muito difícil um parceiro assim.
    Marcos 11-998641031

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