Sem medo de vencer 0 576

Maratonista aquática com raízes na Penha, Poliana Okimoto conta como superou o medo de nadar no mar e se tornou campeã na maratona aquática e grande esperança de medalha olímpica para o Brasil

Medo todo mundo tem. Coragem para encará-lo já é um pouco mais difícil e exige sacrifício. E foi justamente essa coragem que fez diferença na vida e na carreira da nadadora Poliana Okimoto, 26. Nascida na Ponte Rasa, mas moradora da Penha dos dois aos 19 anos, ela é campeã da Copa do Mundo de Maratonas Aquáticas 2009. Para colocar as mãos no título, ganhou nove de 11 provas e venceu campeãs olímpicas e mundiais. Como consequência, se transformou em um dos grandes nomes do esporte brasileiro e é apontada como uma das principais promessas para 2010.

A história de Poliana poderia ser como a de qualquer outra criança que começou a nadar aos dois anos, por iniciativa da mãe, mas que se apaixonou pelo esporte e resolveu tê-lo como profissão. A diferença é que a determinação, disciplina e uma dose de paciência sempre fizeram parte da sua personalidade. E isso foi fundamental para os resultados que ela alcançou e para a superação de um medo que, a princípio, seria suficiente para deixá-la longe de provas disputadas no mar: o de bichos. Isso mesmo. Antes de se tornar uma atleta de ponta, Poliana tinha pavor só de pensar que águas-vivas, arraias, tubarões e outros “seres do mar” poderiam cruzar o seu caminho. E não era um ‘medinho’ qualquer. Mas quase um pânico, desses que paralisam.

Foi essa história de superação que ela contou para a equipe da Revista do Tatuapé em uma quarta-feira ensolarada, na praia de Santos, cidade onde mora há oito anos, durante uma descontraída entrevista e uma sessão de fotos sob o escaldante sol da manhã e ao lado do marido e técnico, Ricardo Cintra, escolhido pelo Comitê Olímpico Brasileiro como o melhor técnico de 2009.

Tudo começou na Academia Munhoz, que ficava na Rua Guaiaúna, onde Poliana fez suas primeiras aulas de natação com apenas dois anos. “A gente sempre passava férias na praia, ia para o clube e minha mãe tinha muito medo que eu e meu irmão mais velho nos afogássemos. Então ela nos matriculou na escola. Comecei a gostar e nunca mais parei”, conta. Com sete anos, ela começou a treinar, já pensando em competições. E aí começaram as primeiras dificuldades. “Nessa época, só tinha provas de 50 metros. E eu era muito ruim, perdia todas. Cheguei a pensar ‘por que todo mundo ganha, e eu não?’. Perguntei para o meu técnico e ele disse que já via em mim características de nadadora de fundo, que competem em provas mais longas e têm mais resistência. Mas eu só poderia começar a competir nessas modalidades com 12 anos. Então tive que esperar um tempão e, quando passei a nadar essas provas, comecei a ganhar”. Daí para as disputas no mar, onde chega a nadar até 10km, foram muitos anos de desafios.

E é claro que a Penha, bairro onde viveu durante tanto tempo, teve sua importância nessa carreira. Foi nele que Poliana começou a dar as primeiras braçadas e foi na casa da mãe que ela viveu os primeiros anos como atleta. Também era para lá que ela voltava depois de muitas provas, feliz ou triste, dependendo dos resultados, e para onde, até hoje, vai para visitar a família e alguns amigos. Outro fato importante vivido na região foi o apoio que recebeu do colégio onde estudou, o Lumiére. “O pessoal do colégio foi um dos primeiros a acreditar no meu talento. Eles me deram uma bolsa de estudos quando eu já era recordista sul-americana e minha mãe passava por uma situação difícil. Sou muito grata por isso até hoje”, diz. Afinal, não basta cuidar do corpo para ser um bom atleta. Estudar também é importante. Tanto que Poliana nunca parou, até concluir a faculdade de Letras.

Toda essa estrutura familiar e emocional foi fundamental para ela superar as dificuldades que vieram com o esporte e conquistar resultados como o primeiro lugar na Copa do Mundo, a medalha de bronze no Mundial de Roma e o sétimo lugar nas Olimpíadas de Pequim. Agora, depois de tantos bons resultados, Poliana sonha com o título no campeonato olímpico de Londres e, é claro, do Brasil. “Eu até tinha pensado em parar antes das Olimpíadas de 2016, mas como a disputa será no Brasil, não quero perder por nada”, diz.

E não há medo de peixe, tubarão ou água-viva que a faça desistir do sonho. A superação desse medo, aliás, está diretamente ligada ao sucesso de Poliana na maratona aquática e foi conseguida com o apoio incondicional de Ricardo. “Em 2004, ele viu a Travessia dos Fortes, que passa na televisão, me ligou e disse ‘você vai fazer essa prova o ano que vem’. Fiquei morrendo de medo de nadar no mar. Chegou em 2005, e eu não queria fazer aquilo, mas tive que ir. O Ricardo disse que pelas minhas características, quanto mais longa fosse a prova, melhor eu me sairia. Então acreditei e fui. Um dia antes, a gente foi treinar no mar e eu não consegui entrar na água. Fiquei dois minutos e saí. Na noite que antecedeu a competição, não dormi, tive insônia e medo. Chegou a hora da prova e estavam lá todas as minhas rivais, aquela adrenalina, eram quatro mil atletas na disputa e eu pensei: ‘não é possível que entre quatro mil pessoas sou eu que vou desistir’. Aí encarei, ganhei, bati o recorde da prova e cheguei perto do recorde masculino”.

Aos poucos, com bons resultados para garantir o ânimo e uma dose a mais de coragem, o medo começou a ficar menor do que a vontade de ganhar. “Em 2006, começamos a fazer o circuito brasileiro para tentar perder esse medo. Treinamos várias vezes na praia e, em muitas delas, eu saí revoltada, me sentindo incapaz e fraca. Mas aí, com o tempo, foi melhorando. Tive que encarar o medo. E é muito difícil, paralisa”.

Que fique bem claro que o medo de Poliana não é da imensidão do mar, mas sim dos bichos que ela imagina que podem atravessar o seu caminho quando está dentro da água. E é claro que ela já cruzou com vários deles pelas águas do mundo afora. Arraias e até cardumes de água-viva já passaram bem ao lado da atleta. “Tenho medo de bicho, não de mar. Sempre tive. Quando a gente viajava de férias, o meu irmão me chamava para ir mais para o fundo do mar e eu não ia. É irônico porque justo onde eu tinha medo, consegui me destacar”. Como? “Durante a prova, fico tão concentrada que vejo os bichos e não sinto medo. Acho que pela concentração e vontade de ganhar. Agora, no treinamento eu ainda tenho um pouco de receio”.

Poliana em disputa acirrada com uma nadadora americana no mundial de Roma, competição na qual levou a medalha de bronze

Depois de um 2009 com ótimos resultados e uma grande exposição na mídia, Poliana diz, sorridente, que se orgulha de ser uma referência para a garotada que sonha em se tornar atleta. “O brasileiro se sente um pouco inferiorizado ao lado dos estrangeiros, principalmente dos americanos, que são os donos da natação no mundo. Às vezes eu ainda tenho esse sentimento. Sempre achamos que lá eles têm mais tecnologia, melhores médicos e nutricionistas. Mas esses resultados me mostraram que a gente também pode. É verdade que tudo para o brasileiro é mais difícil. Mas se tivermos persistência, garra e determinação, é possível conseguir ótimos resultados. Passei por tantas coisas, que hoje eu me orgulho de ser uma referência para a molecada que está começando. Acho isso muito importante. Quando comecei não tinha essa referência. Hoje eles já sabem que o brasileiro consegue”.

Só não podem pensar que a vida de atleta é fácil. Para se destacar, disciplina e determinação fazem toda a diferença. Poliana treina cerca de seis horas por dia (entre piscina e musculação), tem uma alimentação regrada e dorme entre 21 horas e 21h30. “Amo doce e tem épocas em que não posso comer nada de açúcar porque abaixa um pouco minha pressão e isso influencia no rendimento”, conta. Muitas vezes, são diferenças de centésimos de segundos que estabelecem recordes e definem a vitória ou a derrota. Por isso, não é possível descuidar um minuto sequer. “Eu e o Ricardo temos uma frase que usamos como lema: ‘nem muito feliz com a vitória e nem muito triste com a derrota’. Mesmo você ganhando não pode comemorar tanto porque no fim de semana que vem é outra prova. Então tem que continuar a rotina de treino e alimentação senão você vai perder”, diz. Optar por uma carreira de atleta, com ambições de ser campeã olímpica, é uma escolha que inclui muitas renúncias. “Tem que abrir mão de muita coisa. Hoje, minha vida é 100% natação. Acordo cedo todo dia, vou treinar, minha alimentação é rígida e direcionada. Renunciei minha família que ficou toda em São Paulo. Mas tem que persistir. A vida do Ricardo, por exemplo, é totalmente dedicada a minha natação. Às vezes as pessoas pensam que temos um ‘vidão’, só viajamos. Mas não é passeio. Você vai com uma pressão enorme antes da prova, fica angustiado e lá é preciso manter a disciplina. A gente não fica um dia fora da água”.

E apesar de todo o esforço, é preciso saber que a derrota é iminente. “Já perdi muito e já ganhei muito. Eu conheço os dois lados da moeda. Quero muito ganhar, mas sei que posso perder. É uma loteria. Você treina muito, mas na hora pode dar errado. É meio ingrato porque é só você naquela hora. E um erro durante uma maratona aquática faz diferença, assim como um mar diferente, frio ou revolto. Tem que saber lidar com a vitória e a derrota”. Mas será que às vezes não bate aquele medo de perder? “Essa pergunta é profunda, mas acho que tenho mais vontade de ganhar do que medo de perder”. Talvez esse seja o segredo do sucesso: mais vontade do que medo, seja da derrota ou dos bichos.

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