O ‘paizão’ Mauricio de Sousa 0 1225

Criador de mais de 300 personagens, desenhista fala sobre os 50 anos de carreira, o sucesso da Turma da Mônica Jovem e relembra o tempo em que viveu em um casarão na Avenida Celso Garcia

Difícil definir em poucas linhas o que é ser fã de Mauricio de Sousa, ainda mais para quem cresceu no universo dos planos infalíveis, coelhadas, fugas da chuva, pedaços de melancia e “palavlas eladas” presentes nos quadrinhos e almanaques da Turma da Mônica. Por isso, passar algumas horas ao lado do pai e criador de todas essas aventuras foi uma alegria e tanto. E ainda pude fazer uma descoberta: Mauricio viveu algum tempo no Tatuapé, na Avenida Celso Garcia, de onde guarda boas lembranças.

“Morei durante alguns anos num casarão, próximo ao extinto Cine São Luiz, na época situado na Avenida Celso Garcia. Também cursei parte do primário na região, no Colégio Visconde de Congonhas do Campo. Eu era um bom aluno. Não o melhor, mas estava entre os bons”, conta. “Tenho lembranças lindas dessa época. Principalmente dos colegas, da escola, do cinema (programa certo aos domingos na matinê), das caminhadas pela várzea do Tietê e do grande quintal da minha casa. Imagine que tinha 16 pessegueiros e outro tanto de goiabeiras. Sem falar em quando meu pai me levava até onde trabalhava, na importante rádio Cruzeiro do Sul, na Praça do Patriarca. Lá, eu assistia a toda a produção nos bastidores, desde novelas até grandes shows com artistas internacionais”.

Com tão boas lembranças, será que o Tatuapé, com suas paisagens e moradores, não renderia uma história em quadrinhos? “É um bairro vibrante, em transformação constante, mas que guarda nos seus recônditos o jeitão que eu conheci quando criança. Sempre renderia uma boa história”, afirma. Quem sabe um dia, o pai da Mônica não aventure seus personagens pelas nossas redondezas?

Bodas de Ouro

Comemorando 50 anos de carreira, Mauricio recebeu a equipe da Revista do Tatuapé nos seus estúdios, na Lapa, em uma quinta-feira de sol escaldante. Com simpatia e bom humor, se mostrou à vontade em uma sessão de fotos e não deixou de responder a nenhuma das nossas perguntas. Quanto a nós, voltamos à infância e deixamos despertar um pouco da criança que ainda guardamos. Não é para menos que chegamos em casa com revistinhas e desenhos feitos na hora por Mauricio.

Embora não tenha sido a primeira criação do desenhista (tudo começou com Bidu e Franjinha), a pergunta é inevitável: de onde surgiu a Mônica? “Da minha necessidade de escrever histórias. Queria seguir a trilha da família, famosa por ser contadora de histórias, então escolhi o caminho dos quadrinhos”. Durante todos esses anos, o autor desenvolveu um sistema de trabalho em equipe que garantiu o sucesso contínuo da atividade de seu estúdio. “Infelizmente, não tenho mais tempo para desenhar, mas ainda vou reverter isso. Minha esposa Alice Takeda e eu administramos uma equipe, formada à medida que novos artistas nos procuram, com boas condições de seguir nosso traço, estilo, filosofia e ritmo de trabalho”, diz.

Mauricio acredita que após seu afastamento da produção, ou seja, depois que tirou as mãos da massa, conseguiu dar um passo à frente em relação ao seu trabalho, criando, para isso, uma linha de montagem. “Nesse aspecto, segui os conselhos do meu pai, que me dizia: ‘Mauricio, desenhe de manhã e administre seu negócio à tarde, senão você não vai conseguir’”. E como conselho de pai é quase sempre certeiro, deu certo. Hoje, Mauricio tem mais de 300 personagens e, muitos deles, deixaram os quadrinhos para virar produtos licenciados.

O único problema desse avanço é que ele teve de se distanciar um pouco dos “filhos”. “Em cada etapa do processo eu ia deixando algo para o estúdio fazer com dor no coração, pois sempre participei ativamente das produções, do argumento ao desenho, passando pelos processos de colorir, colocar as letras nos balões das falas, ou seja, todas as etapas que consistem na criação de uma historinha”. Mas quem pensa que Mauricio de Sousa abriu mão de dar a palavra final, se engana. “Supervisiono pessoalmente todos os roteiros. Uma história da Turma da Mônica Jovem, por exemplo, já voltou para os redatores três vezes”.

Além de criar personagens baseados em seus amigos de infância, o autor sempre se inspirou em seus dez filhos, netos e bisnetos (frutos de quatro casamentos). Assim, Mônica, Magali, Marina, Maria Cebolinha, Nimbus, Do Contra, Vanda, Valéria e Dr. Spada são “caricaturas” de gente da vida real. Alguns de seus filhos que viraram personagens hoje fazem parte da equipe de profissionais da Mauricio de Sousa Produções. Mônica é responsável pela divisão comercial de alimentos e produtos licenciados; Magali colabora como roteirista e Marina ajuda na criação de novas histórias. E é nela que o pai aposta o futuro do estúdio. “Marina desenha muito melhor do que eu com a idade dela”.

O Cascão e o Cebolinha eram dois amigos que brincavam na vizinhança, perto da casa de Mauricio. “O Marcelinho, que é inspirado no meu filho, já nasceu politicamente correto e é tão certinho que, às vezes, é até difícil de acreditar (risos). Com uma família grande como a minha, sempre haverá personagens para serem lançados. Podem aguardar!”, conta.

A mais recente investida de Mauricio é Turma da Mônica Jovem. Em estilo mangá, o quadrinho traz Mônica e companhia na fase adolescente e já tem tiragem de 400 mil exemplares. “Os gibis da turma jovem não concorrem com os infantis. Eles chegaram apenas para somar e multiplicar o sucesso”.

Mauricio de Sousa em um momento cada vez mais raro: desenhando em uma das pranchetas do estúdio. Hoje, ele se dedica mais à supervisão do trabalho de outros desenhistas

POR DENTRO DOS QUADRINHOS

Durante todas as décadas de existência, as produções do desenhista revelam-se sucesso também no quesito criatividade. Na escolha dos temas, Mauricio pede que seus artistas escrevam e planejem situações e contextos que gostariam de transmitir aos seus filhos. “Há alguns assuntos básicos e fundamentais que não recebem a abordagem necessária na mídia. E essa é a nossa prioridade: emitir mensagens reais, de maneira alegre e suave, mas que alertem a sociedade”, explica.

Nas histórias da Turma da Mônica, Mauricio marca presença, no melhor estilo Hitchcock, interagindo com os personagens. “A ideia partiu dos roteiristas. Aceitei e fui deixando rolar. Em minha opinião, se tornou um hit bastante engraçado”.

Quando se trata de escolher seu personagem favorito, o autor se revela imparcial. “Todos são queridos e amados. Enquanto escrevo sobre determinado personagem, estou dando a ele um pedaço de mim. Nesse momento, sou a Mônica, o Cascão ou qualquer outro. Mas posso afirmar que nos personagens animais, deixo mais do Mauricio de Sousa, pois ali consigo ser eu mesmo e, ao mesmo tempo, extrapolo as minhas opiniões com diplomacia”, conclui.

Sobre os novos rostos dos gibis, o autor adianta que personagens deficientes, de raças e culturas diferentes ensinam as crianças a lidarem com as diferenças. Mais forte do que nunca, a Turma da Mônica e todos as outras criações de Mauricio criam um laço com a realidade. Tanto que, na escolha dos nomes, ele dá preferência aos reais. “Quando batizo os meus filhos, já penso em nomes bons para fazer personagem (risos). Eles têm mais impacto e são mais aceitáveis pelo leitor”, afirma.

ENFIM, ADOLESCENTES

Aos sete anos, Mônica virou paixão nacional em nosso País. Imagine então, depois que entrou para o clube das adolescentes e virou uma mulher decidida, inteligente, forte e, ao mesmo tempo, romântica? A garota, que não é mais baixinha e gordinha, e todos seus amigos ganharam novas roupagens e características nos gibis da Turma da Mônica Jovem. “A ideia foi minha, para compensar a migração dos jovens adolescentes que começavam a ver as revistas clássicas como coisa de criança e iam para o mangá japonês. Como gostavam da Mônica e do mangá, subi a idade da turma para 15 anos e criei o mangá mestiço. Já é um sucesso”, orgulha-se.

Para chegar ao resultado final, durante alguns anos o autor e sua equipe realizaram uma séria pesquisa de como torná-los adolescentes sem que perdessem seu encanto pessoal e intransferível. “Não estipulamos muitas regras para desenvolver as qualidades individuais de cada um. O maior segredo foi deixar fluir. Os jovens têm as emoções de sobra e hormônios a todo vapor. As histórias e características nascem de todos os cantos”, diz. O resultado não podia ser melhor. A Mônica continua geniosa, mas menos agressiva; o Cebolinha não podia ficar sem uma fonoaudióloga; enquanto o Cascão ainda não gosta de banho, mas agora se rende ao chuveiro.

Depois do beijo de Mônica e Cebolinha, Mauricio afirma que temas como sexo, violência, divórcio, drogas e homossexualidade serão tratados sempre, porém de uma maneira elegante, ética e, de preferência, normativa. “Não vamos fugir de nenhum assunto, mas nossos gibis são para a família toda, então decidimos seguir por uma abordagem realista e, ao mesmo tempo, delicada”.

E para os que esperam os gibis da turma adulta, um recado: “Ainda não está nos planos, mas quem sabe. Tenho plena consciência que não é só a pedido dos fãs, mas também precisamos pensar na realidade. Você tem que fazer alguma coisa relacionada ao que está vivendo para se comunicar com a sociedade”.

Adulta ou não, parece que a turminha terá vida longa. Mônica, Magali, Cascão, Cebolinha e companhia agradecem, e nós também!

A Turma da Mônica Jovem é tema da decoração de Natal do Shopping Metrô Tatuapé. O evento fica no local até o dia 3 de janeiro de 2010, todos os dias, das 10 às 22 horas. www.shoppingmetrotatuape.com.br

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