De bem com o espelho 0 1207

Mercado das modelos plus size promete transformar o padrão de beleza que se impõe às mulheres

Elas não usam manequim 36, não dizem que só comem verduras em qualquer entrevista e nem vivem de dieta. São as chamadas modelos plus size. O nome pomposo significa que essas mulheres fazem parte de um grupo que tenta mudar os padrões de beleza que vemos em passarelas ou revistas de moda.

Para Roberto Paes, criador da revista Sem Medida (voltada para esse público) e do site Plus Size Models Guide (www.psmg.com.br), um catálogo online de modelos com manequim maior do que 42, esse já é um mercado bem definido fora do Brasil que, por aqui, precisa de mais incentivo. “Queremos mostrar para o mercado publicitário que 56% da população brasileira está acima do peso e que eles podem sim associar o seu produto à imagem da mulher real brasileira”, explica. Mas é preciso ficar claro que isso não significa um estímulo às pessoas saírem por aí comendo desefreadamente para ficarem gordas e sem saúde. A ideia é mostrar que é possível ser feliz sem precisar comer somente alface para seguir os padrões da moda. Porém, ainda assim, é necessário cuidar da alimentação e do corpo porque, afinal, a saúde tem que ficar em primeiro lugar. “Não queremos incitar ninguém a ganhar peso. Tanto que a revista Sem Medida sempre traz reportagens sobre saúde e exercício físico”, conta Roberto.

A visibilidade desse mercado no Brasil começou a crescer com o sucesso de uma modelo brasileira que mora no exterior: Fluvia Lacerda. Vivendo nos Estados Unidos há muitos anos, ela fez muitas pessoas do Brasil voltarem o olhar para esse outro perfil de modelo. “A verdade é que o público cansou de ser massificado, sempre ouvindo que precisa emagrecer para ficar com corpo escultural. Por isso vejo um mercado que ainda tem muito que crescer”, diz Roberto.

Na verdade, existe um conjunto de fatores que deve se fortalecer para que o espaço das modelos plus size no Brasil aumente. Primeiro, é claro, é preciso que as empresas, principalmente de roupas, entendam que o padrão Gisele Bündchen não corresponde à maior parte das mulheres brasileiras. Também é necessário que as próprias mulheres se conscientizem disso e passem a cobrar outra postura das empresas. Por último, é importante que marcas em geral, não só de roupa, acreditem que podem associar o seu produto a “mulheres da vida real”. Algumas até já fizeram isso, como Dove e Natura. A primeira chegou a usar em suas propagandas mulheres que fugiam completamente do padrão “modelo 36”, com quadril mais largo, barriga saliente e coxas mais grossas.

Para as mulheres que estão descobrindo esse mercado, a ideia agrada. Com apenas 16 anos, Mizia Nobre fez um book profissional, se sentiu linda nas fotos e espera o primeiro trabalho. Mas confessa que já sofreu muito antes de gostar da imagem que vê no espelho. “Já fiz dietas em que passei o dia inteiro comendo somente verduras. Isso é muito ruim porque mexe com o lado psicológico e causa muito transtorno para a pessoa”, diz. “Eu ainda sou um pouco encanada com peso e não é todo dia que me sinto linda. Mas melhorou muito. Não deixo de fazer as coisas que gosto por causa do ponteiro da balança”, completa. Porém, o fato de se aceitar com 1,78m e 95 kg não significa que ela não se cuide. “A minha família tende ao diabetes, então não tenho nem como agir de outra forma”, diz. Para garantir um corpo saudável, Mizia faz exercício, evita refrigerante e procura sempre ter saladas e frutas na alimentação.

Já com mais experiência, Agatha Godoi, 30, está há dois anos na vida de modelo plus size. E a forma como começou foi curiosa. “Fui à agência levar a minha filha para fazer um teste e o produtor perguntou se eu não queria fazer um teste de fotogenia. Fiz e deu certo”, conta. Acima de tudo, a descoberta da vocação para modelo trouxe de volta a Agatha uma autoestima que estava perdida. “Eu sempre tive ‘corpão’ e usava manequim 40 ou 42. Mas depois da gravidez, não consegui mais emagrecer. Fiquei muito chateada e isso só mudou depois que vi as fotos que fiz. Foi ótimo, porque mudei meu jeito de pensar e de me ver”, conta. Se você pensar que a filha mais velha está com 10 anos e que ela está na profissão há dois, já pode imaginar o tempo de sofrimento que Agatha passou.

A modelo Agatha Godoi, que há dois anos está no mercado plus size

A roupa certa

Um dos problemas que as mulheres mais gordinhas enfrentam, mesmo as que se aceitam, é encontrar roupas que as façam se sentir bonitas. Uma reclamação muito comum é de que só conseguem comprar túnicas e roupas largas, o que, muitas vezes, não agrada. “Eu mudei completamente a minha visão do que posso ou não posso usar. Hoje, sei meus pontos fortes e fracos e procuro sempre valorizar os fortes, é claro”, conta Agatha.

Para Eliana Chican, diretora de marketing da Kauê Modas, grife especializada em roupas tamanho grande, o que as pessoas querem é se sentir bem e usar o que todo mundo usa. “Quando começamos, em 1990, a proposta era ter uma roupa mais clássica. Hoje, isso não funciona mais e a ideia é oferecer uma roupa mais jovem e muita variedade”, diz. Ao contrário do que muita gente pensa, as marcas de roupas para gordinhos costumam ter uma estilista que trabalha, entre outras coisas, adaptando as tendências de moda que se vê pelo mundo para esse público. “Durante um bom tempo, agente deixou de colocar um produto no ponto de venda por achar que aquilo não agradaria. Mas as pessoas nos cobram essas novidades, essas tendências. Então quase tudo que está na moda conseguimos colocar nas lojas. E tudo é muito rapidamente absorvido”, explica. Eliana conta que desde o começo trabalhou com modelos plus size e que acredita no potencial do mercado. “Não tenho dúvida de que a Fluvia Lacerda, desde que apareceu forte na mídia, fez as pessoas olharem de um jeito diferente para o mercado”. Agora, é questão de tempo e trabalho.

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