Tiquinho de gente, pedacinho de amor 0 1291

Nascidos antes do tempo previsto ou necessário, os bebês prematuros são a alegria redobrada da maternidade

Ele chegou assim, de mansinho e tão rápido, uma alegria sem igual para os papais Virgínia Teodoro e Gilderlan Ornelas do Amaral e atende pelo nome de Gabriel, nome forte de arcanjo que significa ‘Força de Deus’ e na simbologia bíblica representa o arcanjo da Esperança, da Anunciação, da Revelação, enfim, o transmissor das Boas Novas.

Nascido no último dia 22 de maio, pesando 565 gramas, Gabriel teve que ficar na UTI Neonatal do Hospital São Luiz por 236 dias, até que atingisse o peso ideal, tanto que saiu do hospital, para felicidade de seus pais, em janeiro deste ano, pesando já mais de 4 quilos. Ninguém melhor do que a mamãe do Gabriel para descrever a emoção de receber essa boa nova em casa: “foram muitos os obstáculos, uma tarefa super difícil… às vezes você se pergunta ‘porque isso aconteceu comigo?’ Muitas vezes você pensa em desistir, mas ao olhar para nosso filho, você o vê lutando, e isso te dá força para continuar a batalha. É um misto de felicidade, tristeza e de desespero, só que ao ver o sorriso dele, o olhar profundo com que ele olha, é muito gratificante e satisfatório”, diz emocionada.

Não é nada fácil ter um bebê e sair de braços vazios do hospital, mas graças a Deus, como relatam todas as mães que passam por essa situação, a Medicina tem evoluído muito. O que é confirmado pela médica da UTI Neonatal do Hospital São Luiz, Graziela Del Ben. “Não significa que eles estejam livres de riscos. Eles existem, os cuidados devem ser redobrados, há a necessidade de acompanhamento do pediatra, junto a um oftalmo, fonoaudiólogo, e nós mesmos buscamos esse retorno para saber da evolução do bebê prematuro. Mas não há como negar que a tecnologia tem permitido maior sobrevida deles”, atesta a dra. Graziela.

Virginia e Gilderlan decidiram que o bebê se chamaria Gabriel, nome forte de arcanjo que significa “Força de Deus”

Segundo a médica, com base em dados internacionais, há uma média de 10 a 20% de trabalho de parto prematuro, muitas vezes ocasionados de forma espontânea, mas principalmente por problemas com a mãe, que pode ter uma infecção urinária que abrevie o trabalho de parto, ou por hipertensão, entre outros.

Sobre o pequeno Gabriel, a dra. Graziela, que assistiu seu caso desde o início, considera uma vitória um bebê considerado extremamente prematuro como ele, ter evoluído tão bem e ir para casa sem maiores complicações.

A mensagem final só poderia ficar com Virgínia, mamãe do Gabriel: “ele é muito especial e trouxe para nossa família a certeza de que Deus existe, que nada é por acaso, que devemos ter sempre paciência e viver um dia de cada vez. Cada sorriso que o Gabriel dá mostra como a vida é bela, e ele veio para vencer uma verdadeira  lição de vida, faz a gente enxergar que pequenos problemas não são nada”.

Para as mamães com gravidez complicada, a mensagem é para nunca perderem a esperança, “a força que os prematuros têm para sobreviver, porque existe uma mãe e um pai ali com todo amor e carinho, esperando-o de braços abertos para curtir todos os momentos juntos”.

PEQUENOS UNIVERSOS QUE SE UNEM PELA FORÇA DO AMOR

Duda, a vitoriosa

Adriana já era mãe do pequeno Guilherme, na época com 4 aninhos, quando ficou esperando um outro bebê, desta vez uma menina que iria se chamar Maria Eduarda. Tudo corria bem até que, durante exames de rotina, com 21 semanas de gravidez, Adriana soube que o bebê tinha algumas complicações sérias que afetavam seu coraçãozinho em formação, estômago e pulmão. Este último, o médico alertara, só daria para saber se estava mal formado, depois do parto. Apesar de tudo, com o marido recém encaminhado para Belém do Pará por força do trabalho, Adriana foi uma verdadeira mãe coragem, ao prosseguir com a gravidez, sem a presença do esposo. Apoio, ela encontrou no filho Guilherme e até com as professoras da escola dele. “Como estava sozinha, me atrasava para buscá-lo, ele tinha que ficar até mais tarde na escolinha. Se não fosse o apoio de todos, teria sido mais difícil”, lembra.

“A gente pensa no pior, mas se depara com coisas piores ainda quando passa a frequentar uma UTI”, mamãe Adriana

Quando perguntada sobre a força da maternidade e o fato de a criança correr riscos, o silêncio é sua melhor resposta. Faltam palavras, mas não falta amor e a constatação de que, mesmo com tudo, sua filhinha, hoje com dois aninhos, aniversariante de março, saiu-se muito bem, sem sequelas. “Para um bebê prematuro, ela nasceu com um peso bom: 2,100 kg. A gente pensa no pior, mas se depara com coisas piores ainda, quando passa a frequentar uma UTI.

No balanço do que passou, Adriana avalia que a experiência, sem dúvida, a fez crescer muito, e deu a ela e ao marido, uma nova visão de mundo.

Pietra – Lição de vida

Gloria é mamãe da Pietra, hoje com três anos e 9 meses, e é mais uma das tantas mamães que passou por uma gestação complicada. Prematura extrema de 26 semanas (aprox. 6 meses e meio), Pietra pesou 775 gramas, com 30 cm, e nasceu de um parto cesárea de urgência por corioamnionite, ou seja, infecção do líquido da bolsa.

O mais interessante e peculiar dessa história é o fato de Gloria ser pediatra e neonatologista, acostumada a lidar com recém-nascidos sadios e doentes. “Quando eu estava nessa situação de “mãe de UTI”, sentia que em alguns momentos era fácil e em outros difíceis. Fácil, porque sabia mais ou menos a evolução que minha filha podia ter, e com isso podia me preparar. E difícil, porque sabia a gravidade que as complicações que vinham pela frente podiam ter. Mas tudo isso (o fácil e o difícil) não me excluía do medo, da angústia, da tristeza, e de tantos outros sentimentos”, relata.

A gestação de Glória durou 6 meses e meio, Pietra nasceu com 775 gramas e 30 cm

Afinal de contas, quando nasce uma criança com complicações e que precisa de internação na UTI neonatal, todo cuidado é necessário na hora de passar essa informação aos pais, como enfatiza Gloria que lembra que cada um tem uma forma de reagir diferente. “Dependendo da gravidade do caso e do tempo de internação, os pais passam por várias fases: negação, medo, angústia, tristeza, depressão, confiança. E essas fases precisam ser respeitadas”, explica.

Mas todo esse universo vivido no cotidiano de Gloria parece hoje bem mais claro com o fato de ela ser mãe de uma linda menina que um dia foi prematura e teve várias complicações que demandaram um cuidado ainda maior do que normalmente se dá um bebê. Mas ela não esmoreceu, nem deixou de ter uma bela visão de mundo, resumida nessa mensagem aos leitores da Revista do Tatuapé, em especial às mamães e papais que passam por uma situação como essa: “um filho prematuro é sinônimo de amor e dedicação. Durante os primeiros anos, eles precisam de muitos cuidados: acompanhamento com pediatra, oftalmologista, neurologista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional etc. O melhor é viver um dia de cada vez, dando-lhes o carinho e apoio que eles precisam para superar as dificuldades da prematuridade”.

Quase prematuros

Luciane é mãe dos gêmeos Raphael e Fabrício, hoje com três anos e 9 meses de vida. Nasceram com 35 semanas e 6 dias e como a própria mamãe deles diz, são quase prematuros, porque não tiveram grandes complicações. Mesmo assim foram para a incubadora, como relata Luciane, tiveram icterícia, mas saíram com ela da maternidade. Um grande ganho. “Foi minha primeira gravidez, com 29 anos, esperamos por sete anos para ter um filho, então foi bem planejado. Só não imaginava que viriam gêmeos. Até mesmo no primeiro ultrassom não deu pra ver os dois, tanto que foi uma surpresa saber, no segundo mês, que viriam dois”, relata.

Para a alegria dos papais,
Luciane e Anderson, os prematuros Raphael e Fabrício nasceram sem grandes complicações

Para ela, só o fato de estar grávida já muda toda a rotina da mulher. No caso de Luciane, aos cinco meses de gravidez não pode mais trabalhar, tendo que ficar em casa até o final, porque teve algumas complicações, e todo cuidado era pouco diante de uma gravidez em dobro. Os gêmeos nasceram com um peso bom, (2,800 kg para Raphael, e 2,400 kg para Fabrício), mas bem pequenininhos. “Tinha que apertar o tamanho PP para caber neles, mas graças a Deus deu tudo certo”, conta Luciane.

Como experiência adquirida, ela diz o seguinte: “sempre adorei criança, mas não era meu principal projeto de vida. Hoje, vejo de uma forma diferente, penso que toda mulher precisa da experiência de passar pela maternidade, pois agrega valores muito simples que mostram que não é preciso muito para ser feliz”, arremata.

Mas como são os bebês  prematuros?

Bebê prematuro é aquele que nasce antes de completar 38 semanas de gestação, caso do Gabrielzinho que nasceu com 27 semanas.

Existem os casos de bebês:

Extremamente prematuros – que nascem com menos de 30 semanas de gestação;
Moderadamente prematuros – que nascem entre 31 e 36 semanas de gestação;
Prematuros limítrofes – que nascem entre 37 e 38 semanas de gestação.

O bebê prematuro, em geral, permanece durante certo tempo numa incubadora. Trata-se de um aparelho cuja temperatura é mantida constante e no qual o bebê pode receber oxigênio para facilitar sua respiração. Como está mais propício a contrair infecções, o prematuro tem na incubadora o ambiente ideal para os seus primeiros dias de vida.

Hoje, com os avanços produzidos na ciência e na tecnologia, é possível fazer uso de técnicas de vigilância do recém-nascido, cuidados neonatais sem terapêuticas agressivas, e prevenção da insuficiência respiratória, entre outras. Com isso, apesar de todo o cuidado que deve ser dispensado, os bebês prematuros têm maiores possibilidades de sobrevivência, ainda que nasçam em idades gestacionais muito precoces.

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