O sonho de ser pai 0 936

Infertilidade masculina não significa a impossibilidade definitiva de ter filhos

Estatísticas mundiais a respeito da infertilidade mostram que mais ou menos 15% dos casais que desejam engravidar apresentam algum tipo de problema de infertilidade. Durante muito tempo, os “problemas para engravidar” foram todos atribuídos às mulheres e só recentemente passaram a fazer parte do universo masculino. “Atualmente, a conduta mais adotada, diante de um quadro de infertilidade é encaminhar o casal para avaliação. A dificuldade pode estar tanto num, quanto no outro, ou ainda nos dois”, afirma o  médico ginecologista, Joji Ueno, especialista em Reprodução Humana, doutor em Ginecologia pela Faculdade de Medicina da USP.

Na entrevista a seguir, o médico fala sobre os problemas de infertilidade masculinos e defende que “o diagnóstico bem feito é fundamental para a escolha do método terapêutico mais indicado”:

Como se inicia o processo diagnóstico de um homem que não consegue engravidar sua parceira?

Diante de qualquer caso de infertilidade, adotamos a regra de que o problema é do casal. O ideal, portanto, é que a mulher seja investigada pelo ginecologista e o homem, pelo andrologista, ao mesmo tempo. A avaliação começa pelo levantamento da história para verificar se o casal mantém relações sexuais regularmente. Sabe-se que para conseguir a gravidez é preciso que elas aconteçam, em média, três vezes por semana, em dias alternados. Depois, procuramos identificar algum possível problema que esteja atrapalhando a gravidez, como dificuldade de ereção ou para ejacular. Solicitamos também um espermograma para determinar a quantidade e a qualidade dos espermatozóides ejaculados.

Que tipo de informação o médico pode obter com a análise do espermograma?

A primeira informação é a respeito do número de espermatozóides que o homem ejacula. O normal é ter 20 milhões de espermatozóides por mililitro de esperma e que 50% deles sejam móveis, isto é, tenham a capacidade de sair da vagina e chegar à trompa para encontrar o óvulo. 20 milhões, entretanto não é um número absoluto. Muitos homens com número menor de espermatozóides conseguem engravidar a mulher, se ela for jovem e tiver boa fertilidade, o que seguramente compensa a deficiência masculina. Como depois dos 35 anos, a fertilidade feminina começa a cair, aí, sim, o homem tem de produzir espermatozóides em quantidade e qualidade adequadas.

À medida em que passa o tempo, a mulher vai se tornando menos fértil. Com o homem acontece a mesma coisa?

Não. A mulher nasce com a quantidade exata de óvulos que utilizará durante a vida. Ela chega à menopausa porque a produção de óvulos esgotou. Já o homem começa a produzir espermatozóides na puberdade e continua produzindo até morrer. É óbvio que algumas doenças e o uso de certos medicamentos podem atrapalhar, mas um homem com saúde tem todas as condições de continuar fértil aos 85 anos. Recentemente, surgiram trabalhos a respeito de alterações genéticas nos espermatozóides dos homens mais velhos, mas isso não impede que tenham filhos saudáveis. Há muitos exemplos no mundo de homens com 80, 85 anos que tiveram filhos com mulheres mais jovens.

Uma das causas  de infertilidade masculina é a baixa produção ou a produção inadequada de espermatozóides. Outra causa possível é a disfunção hormonal. Existem outras causas?

Além dessas, as mais freqüentes são a varicocele e os processos inflamatórios. Conseguimos reverter com tratamento: quadros de disfunção hormonal, varicocele e processos inflamatórios.

Por que a varicocele interfere na fertilidade masculina?

Varicocele são varizes que aparecem no cordão espermático e podem atrapalhar a produção de espermatozóides. Essas varizes fazem com que a pressão testicular e intratesticular aumente. Entretanto, 60% dos portadores da doença não apresentam nenhuma alteração da fertilidade. Os outros 40% , em geral, são inférteis.

Algum tipo de medicamento pode diminuir o número de espermatozóides?

Sim, os anabolizantes têm esse efeito. Sua ação é parecida com a da testosterona em doses altas, uma vez que ambos bloqueiam o funcionamento da hipófise e, conseqüentemente, a produção de espermatozóides nos testículos. Em 20% dos casos, esse bloqueio é definitivo, irreversível, porque acaba condicionando um ambiente intratesticular que leva à fibrose do testículo e interrompe definitivamente a produção de espermatozóides. Apesar de o risco ser enorme, aos 18 anos, o jovem não está muito preocupado com os filhos que quer ter aos 30 anos. Há também um medicamento muito usado para combater a queda de cabelo – a finasterida – que provoca diminuição do número de espermatozóides, principalmente naqueles que têm fatores de risco associados, como obesidade e varicocele, por exemplo, mas é um efeito colateral reversível.

Além dos anabolizantes e da finasterida, alguma outra substância altera a produção de espermatozóides?

A maconha altera a motilidade dos espermatozóides. A cocaína, mesmo nos usuários sociais, pode provocar um comprometimento irreversível no túbulo seminífero, região do testículo onde são produzidos os espermatozóides.

O cigarro também compromete a fertilidade masculina?

A fertilidade masculina é prejudicada pelo tabagismo, na medida em que ocorre um decréscimo nas taxas de gravidez e uma alteração nos parâmetros seminais de pacientes tabagistas. O tabagismo masculino está associado à redução na qualidade do sêmen, incluindo concentração de espermatozóides, motilidade, morfologia e efeito potencial na função espermática, além das alterações nos níveis hormonais. O hábito de fumar, com o passar dos anos, estabelece um declínio na capacidade reprodutiva masculina de maneira progressiva.

O que pode ser feito, hoje, para tratar a infertilidade masculina?

É muito importante começar pelo diagnóstico correto. O espermograma é um exame cuja precisão depende muito de como foi feita a coleta do esperma. Muitos indivíduos ficam ansiosos na hora de colher o material, não conseguem ejacular adequadamente e o resultado dá bastante alterado. Para evitar conclusões equivocadas, pedimos a repetição do exame num laboratório que ofereça boas condições de coleta para ver se a alteração de fato existe. Se existir, torna-se necessário investigar sua causa. Para diagnosticar a varicocele, o exame é físico. O indivíduo fica em pé, assopra a mão com força e o médico apalpa as veias que, pela própria anatomia do testículo, ficam mais dilatadas do lado esquerdo. Descartada também a presença de infecções e a disfunção hormonal, as três causas que, como dissemos, podem ser tratadas, estuda-se qual o tipo de tratamento de reprodução assistida mais indicado para aquele caso.

Quando os tratamentos de reprodução assistida são indicados?

Quando a causa da infertilidade do casal é masculina, é o número de espermatozóides: mais de 6 milhões, que indica a inseminação artificial, ou , abaixo de 5 milhões, que indica a  fertilização in vitro. Para a inseminação ser viável o homem precisa ter acima de 6 milhões de espermatozóides. Se assim acontece, o ginecologista estimula a ovulação da mulher e, no dia em que dois ou três óvulos estão prontos, por processo bioquímico relativamente simples, separam-se os espermatozóides férteis, que são colocados dentro do útero.  Já para realizar a fertilização in vitro, a mulher precisa ser estimulada a produzir mais óvulos, em geral, dez óvulos que serão retirados no dia da ovulação. Ao mesmo tempo é feita a coleta dos espermatozóides, que são preparados no laboratório e, em seguida, colocados numa plaqueta junto com os óvulos. Vinte e quatro horas mais tarde já é possível avaliar se houve fertilização. Se tiver ocorrido, depois de 48 horas, os embriões serão transferidos para o útero da mulher.

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